Um mendigo está dentro do ônibus, sentado nos últimos bancos. Num dos pontos da Rua da Consolação ele avista um conhecido e o chama quando o ônibus para.
Este, que está na calçada, entra pela porta traseira do ônibus. Um senhor negro de meia idade com dois sacos imensos, aparentemente cheios de latinhas de alumínio e um rádio velho, felizmente desligado, sobre a cabeça. Ele vai ao encontro do amigo que o chamou.
Previ alguma bagunça, para incomodar a tranquila viagem do ônibus que estava com poucos passageiros (eu inclusa). Só que não.
Após deixar os sacos no chão, e o rádio num dos bancos, ele abraçou fortemente o amigo já lá sentado e, ao contrário do que poderia ser previsto, não pediu nada, não queria vender nada, mas começou a distribuir apertos de mão aos demais passageiros, e muita energia positiva, que contagiou a todos.
Auto denominado-se um mendigo, seu discurso era de não às drogas. Disse que costumava passar pela Cracolândia, onde – negando já ter consumido também – dizia aos viciados que por lá perambulavam para não roubarem nem incomodarem as outras pessoas por causa de seu vício. Seu discurso também era contra os falsos pastores que também acessavam a região.
Sua alegria, sua mensagem, contagiou a todos, quebrando a frieza dos usuários do transporte coletivo. Cerca de 10 passageiros, pudemos apertar sua mão, sorrindo.
Desembarquei mais feliz logo depois. Que pena, já estava chegando ao meu destino. Era um presente em nome de Deus.
Não importa como Deus embrulha seus presentes. Bastar estarmos de coração aberto para recebê-los!