Cresci no bairro do Méier, numa vila com 50 casas, onde todas as crianças
cresceram juntas brincando nessa vila, ia para a escola a pé e voltava
a pé para casa fazendo a maior farra nas calçadas
Não tínhamos bolsa família, vale transporte e nem vale gás. Não tinha Google, as pesquisas de escola eram feitas em biblioteca pública. E mais, tínhamos que fazer absoluto silêncio e escritas a mão (se tivesse igual como no livro, estávamos ferrados).
Na escola tinha a gorda, a pata, o seco, o leitão, quatro- olho, o beiçola, o macarrão, o negão, o alemão, o zoreia, o mosquito, o nariz, o chero, a portuguesa burra e por aí vai. Eu era a Quatro-Olho.
Todo mundo era zoado, às vezes até brigávamos, mas logo estava tudo resolvido e seguia a amizade, era brincadeira e ninguém se queixava de Bullying.
Existia o valentão, mas também existia quem defendesse. Tinha o dia do flúor, da vacina, tinha merenda. Nossas férias começavam 27 de novembro e retornávamos só (PASMEM) depois do carnaval. Tínhamos férias de 1° a 31 de julho.
Todos os dias antes de iniciar as aulas, cantávamos o hino nacional com a mão no peito e com orgulho e ai de quem cantasse errado, cruzasse os braços ou fingisse que tava cantando!
Mantínhamos distância do amigo da frente com o braço direito esticado na fila. Levantávamos quando a Diretora entrava na sala de aula. Falávamos sim senhor, sim senhora para os mais velhos. Existia muito respeito.
O famoso Ki Suco que com 10 centavos comprávamos era o único pó que conhecíamos. Fazíamos 2 litros com um pacotinho e a língua ficava colorida por uns dois dias.
Época que ser gordinho era sinal de saúde e se fosse magro, tínhamos que tomar o Biotônico Fontoura, famosa vitamina de ovo de pata ou até óleo de fígado bacalhau. As frases “já vai” ou “tô indo” eram para ficar mais tempo brincando na rua e não no celular ou computador.
Colecionava-se figurinhas, as brincadeiras eram saudáveis, brincávamos de bater em figurinhas e não nos nossos professores. Jogávamos vôlei, handebol, queimado e futebol na rua, nossa aventura era tocar campainha e sair correndo. Todo mundo brincava junto e como era bom.
Bom não, era maravilhoso! Assistia Pica Pau, Manda Chuva, Tom e Jerry, Perdidos no Espaço, Pantera Cor de Rosa, Rim Tim Tim, Os Jetsons, Scooby Doo, Os Flintstones, Terra de Gigantes, Jeane é um Gênio, os Trapalhões, a família assistia junta, tempo bom.
Que saudades dessa época em que a chuva tinha cheiro de terra molhada! Época em que nossa única dor era quando usávamos merthiolate nos machucados. Éramos felizes em comparação com esse mundo de hoje onde tudo se torna bullying ou preconceito. Cheio de mimimi.
Nossos pais eram presentes, educação era em casa. Nada de chegar em casa com algo que não era nosso, desrespeitar alguém mais velho ou se meter em alguma conversa (somente um olhar bastava), e lá vinha o famoso e terrível EM CASA A GENTE CONVERSA. E tínhamos hora para chegar em casa, 10 horas da noite e NEM UM MINUTO A MAIS.
Fico me perguntando, quando foi que tudo mudou e os valores se perderam e inverteram dessa forma?
Sem dúvida vivemos bons tempos! Infelizmente vai ser difícil ver as próximas gerações vivendo tudo isso! Como sinto saudades desse tempo
Angela Barreto
Professora